quinta-feira, 25 de abril de 2013

25 de Abril


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas (1977)

Abril com "R"

Abril com "R"

Trinta anos depois querem tirar o r
se puderem vai a cedilha e o til
trinta anos depois alguém que berre
r de revolução r de Abril
r até de porra r de vezes dois
r de renascer trinta anos depois

Trinta anos depois ainda nos resta
da liberdade o l mas qualquer dia
democracia fica sem o d
Alguém que faça um f para a festa
alguém que venha perguntar porquê
e traga um grande p de poesia.

Trinta anos depois a vida é tua
agarra as letras todas e com elas
escreve a palavra amor (onde somos sempre dois)
escreve a palavra amor em cada rua
e então verás de novo as caravelas
a passar por aqui trinta anos depois-

Manuel Alegre

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Lídia Jorge por Paulo Serra

Artigo do professor Paulo Serra, do núcleo de estágio  da Espan, publicado no jornal Correio do Sul.

Dia da Terra na Espan


quinta-feira, 11 de abril de 2013

Lídia Jorge


"
Encontramo-nos hoje aqui para celebrar dez anos sobre a publicação do romance O Vento Assobiando nas Gruas, mas, ao fazê-lo, devemos celebrar também trinta e dois anos (O Dia dos Prodígios, o primeiro romance de Lídia Jorge, é de 1980) de produção literária. Nestes maus tempos, ou tempos maus, em que vivemos, e que são também demasiadas vezes tempos de má literatura, faz ainda mais sentido celebrarmos os escritores que, como Lídia Jorge, criam livros contra a corrente e que continuam o seu labor literário com perseverança, teimosia e também uma necessária intransigência, preservando para a escrita e para a literatura um lugar com dimensões transcendentes, uma presença real.

Um dia escutei da Lídia, já não me lembro em que contexto, uma observação que guardei até hoje. Lembro-me dela muitas vezes, refiro-a outras tantas e ela foi muito importante para mim, para que pudesse entender por que é que, um dia, também eu quis escrever. Defendia a Lídia que o escritor é alguém que, num determinado momento da vida, é remetido para um espaço marginal, de exclusão, o que o leva a tornar-se um extra-ordinário, um excecional observador da vida e dos outros. Estando de fora, tornando-se um Outro, o escritor vê para além do evidente e recolhe do mundo as impressões mais subtis e dos homens a verdade da sua condição. Milene Leandro, a protagonista de O Vento Assobiando nas Gruas, que sofre de oligofrenia, é, também ela, ao mesmo tempo, uma excluída e uma excecional testemunha do mundo. Neste sentido, ela pertence à família literária do epiléptico Príncipe Míchkin, o Idiota para a criação do qual Dostoiévski se inspirou em Dom Quixote e, através do qual, o escritor quis criar «a imagem do homem positivamente bom». Não por acaso O Idiota foi, e continua provavelmente a ser, um dos romances mais incompreendidos de Dostoiévski. E não por acaso Milene é talvez a figura mais importante criada por Lídia Jorge. Nela se expressa uma individualidade heroica, porque natural e espontânea.

Aos 34 anos, Milene observa o mundo com a inocência que genericamente se atribui a uma criança (isto a acreditarmos que as crianças são mais inocentes do que cruéis...). Sozinha em Valmares, sem a família, que partira de férias, Milene toma conhecimento da morte da avó (Dona Regina, cujo corpo foi encontrado em cima dos portais da Fábrica Velha) e assiste ao seu funeral. Enquanto vive estes acontecimentos, Milene procura traduzi-los em palavras, para que os possa vir a relatar à família. «Como muitas vezes lhe sucedia, possuía todos os elementos encadeados dentro da sua ideia e, no entanto, verdadeiramente, não dispunha de nada para dizer.»

Como o longo corpo da Fábrica Velha estendido ao sol, como as onze palmeiras em frente, como o campo de morraça em volta, depois como as gruas a que sobe o cabo-verdiano Antonino, Milene tem o saber das coisas caladas, o saber e a memória das testemunhas passivas. Mas, Milene não possui o poder de dizer as coisas que sabe de uma maneira certa, com uma forma que faça justiça àquele saber. Esse papel é dado à narradora, prima de Milene e, através dela, à autora, à escritora, que, como Milene, sabe, e que, por ela, diz. Os outros podem até ter tido «a intenção de a empurrar para o domínio da insignificância e da obscuridade, esse lugar onde tudo se perde e anula antes de tempo». Mas, escreve a narradora, «nós não deixámos».

A história do acolhimento de Milene pela família cabo-verdiana Mata (que há cinco anos é inquilina do património degradado da família Leandro, a Fábrica de Conservas, o «Diamante») e a história de «um amor comum, normal, indizível» entre Milene Leandro (neta da matriarca Regina e sobrinha do presidente da Câmara de Valmares) e o viúvo Antonino Mata (neto da matriarca Ana Mata) são histórias de dias da ira e de «confronto com a desordem do Mundo». Aqui se retrata o jogo que, muitas vezes (talvez a maior parte das vezes), está por detrás dos interesses políticos e financeiros, o jogo da crueldade social, que implica a subjugação de uns por outros. A denúncia deste jogo está presente, de uma forma mais ou menos vincada, em todos os romances de Lídia Jorge. Mas, aqui, em O Vento Assobiando nas Gruas, Lídia Jorge atinge um ideal meio campo entre a moral e a estética, e fá-las mover num mesmo tom (como Harold Bloom defende que George Elliot o fez em Middlemarch).

O cosmos das famílias Leandro e Mata na cidade ficcionada de Santa Maria de Valmares serve a imaginação moral. É uma metáfora do mundo, claro, e dos homens. Uma metáfora moral, ou, se preferirem, uma metáfora humanista, que fala de homens capazes de esterilizar outros, de os tornar transparentes, de os humilhar. Fala de traição e crime de homens sobre outros homens, seus irmãos. Poderosa como esta metáfora moral, encontramos também aqui uma metáfora da imobilidade e da mudança: o vento assobia nas gruas e elas remexem a terra para a modificarem, como a cultura moderna remexe em culturas antigas, para as alterar e as obliterar. Como em todos os livros de Lídia Jorge, prevalece sobre toda as metáforas e toda a narrativa de O Vento Assobiando nas Gruas uma ideia de humanidade e fraternidade que resiste, estoica, por mais excluída que ela seja e por mais que se vivam maus tempos, ou tempos maus.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Lídia Jorge

Nascidos para Ler


2007-11-05 17:31:34
Em que dia nos transformámos em leitores para sempre? Cada um de nós lembrará a sua história. Recordará um colo, um abraço, um livro colocado na mão de alguém, uma estante, um professor, uma certa noite, um certo dia. Aquele momento e aquela hora em que se associou uma voz humana com a capacidade de multiplicar imagens infinitas dentro da cabeça, e de permeio estavam folhas escritas. Alguém que de súbito põe a mão na máquina que roda o filme das letras, e o cinema começa a correr por dentro da nossa vida. Alguém que depois nos coloca diante duma estante e nos diz – Aqui tens, tantos seres humanos quanto as lombadas, tantos filmes quantas as páginas. És um homem livre.
Em que dia, então, nos transformámos em leitores para sempre? Em que dia começámos a nascer para ler? Em que mês do ano aconteceu esse acaso da multiplicação dos Espaços dentro das nossas vidas? Ao mesmo tempo Ulisses e os cinco Compson?
Faço estas perguntas e estou a pensar numa ideia nova, talvez a única ideia revolucionária que desde as últimas décadas a Europa foi capaz de criar. Que se conheça, a única que tem como sujeito um homem novo. É a ideia maravilhosa de que todas as crianças do Mundo devem ser concebidas como seres nascidos para ler. O que equivale a dizer que a leitura deve ser elevada à categoria duma segunda natureza da pessoa. E que a sociedade deve promovê-la como um elemento tão importante quanto se lhe reconhece o direito a uma família ou um alimento. A ideia de que esse direito imprescindível deve ser promovido pelos Estados e por todos aqueles que sabem que a leitura amplia a vida, como um dever de contágio formidável. Esta, sim, é uma ideia de Futuro e aponta para um novo paradigma de instrução para a Liberdade, no momento em que se desenham no horizonte rumores de pensamentos únicos e amnésias planificadas. O que os novos planos de leitura, que hoje em dia se implantam um pouco por toda a parte, trazem de novo é isso mesmo - Servem para proporcionar a hipótese de que esses momentos inaugurais de encontro com um livro colocado entre os olhos da criança e o abraço, se multipliquem, uma e outra vez, se prolonguem, mudem de local e de suporte, mudem de figuras e de géneros, mas que estejam sempre lá. À espera do acaso. O que significa que proporcionar esse acaso se transformou num dever. E porque não dizê-lo? - Para muitos países, como o nosso, talvez esta seja uma oportunidade única para nos transformarmos da antiga nação que somos com relutância à leitura, numa sociedade aberta, moderna, civilizada pelos livros.